Tuesday, October 14, 2008

Os teus pés

Quando não posso contemplar teu rosto

Contemplo teus pés.

 

Teus pés de osso arqueado,

Teus pequenos pés duros.

 

Eu sei que te sustentam

E que teu doce peso

Sobre eles se ergue.

 

Tua cintura e teus seios,

A duplicada púrpura

Dos teus mamilos,

A caixa dos teus olhos

Que há pouco levantaram voo,

A larga boca de fruta,

Tua rubra cabeleira,

Pequena torre minha.

 

Mas se amo os teus pés

É só porque andaram

Sobre a terra e sobre

O vento e sobre a água,

Até me encontrarem.

 


 

Posted by Sandra at 20:33:59 | Permalink | Comments (2)

O Amor

 

O que tens, o que temos,

Que se passa connosco?

Ai, o nosso amor é uma corda dura

Que nos amarra, ferindo-nos,

E, se tentamos

Livrar-nos da ferida,

Separar-nos,

Dá outro nó e condena-nos

A viver sangrando, a queimar-nos juntos.

 

O que tens? Contemplo-te

E nada encontro em ti senão dois olhos

Iguais a todos os olhos, uma boca

Perdida entre mil bocas que beijei, mais formosas,

Um corpo igual aos que resvalaram

Sob o meu corpo sem deixar memória.

 

Tu caminhas vazio pelo mundo

Como uma jarra cor de trigo,

Sem ar, sem som, sem substância.

Em ti procurei em vão

Fundura para os meus braços

Que sem cessar escavam sob a terra:

Sob a tua pele, sob os teus olhos

Nada,

Sob o teu duplo peito levantado

Apenas

Uma corrente de ordem cristalina

Que não sabe por que corre a cantar.

Porquê, porquê, porquê,

Meu amor, porquê?

 

 

Posted by Sandra at 20:21:56 | Permalink | No Comments »